ESTUDO DO LIVRO DE ESDRAS

O livro de Esdras é um testemunho extraordinário da fidelidade do Senhor ao seu povo. Com Neemias, copeiro judeu que recebeu do rei Artaxerxes autorização para reedificar os muros de Jerusalém, o sacerdote e escriba Esdras descreve os acontecimentos que levaram os judeus a retornarem do cativeiro na Babilônia, bem como as experiências desanimadoras daquela pequena comunidade no universo árduo pós-invasão da Terra Prometida.

Por meio de cada experiência, Deus provou ser fiel; afinal, com a liderança de Esdras e Zorobabel, o Altíssimo cumpriu suas promessas anunciadas por seus profetas, trazendo da Babilônia o seu povo, que reconstruiria o templo em Jerusalém, e renovando a esperança de que o reino davídico seria restaurado.

Em 539 a.C., Ciro, rei da Pérsia, derrotou o império babilônico e, diferente dos governantes anteriores, permitiu que os cativos retornassem às respectivas terras natais e vivessem de acordo com as próprias tradições culturais e religiosas. Ao mesmo tempo, todos esses povos permaneceram como parte integrante do império persa, sujeitos ao imperador.
 
O trabalho da restauração do templo teve seu início no reinado de Ciro, continuou durante a época de Cambises, e foi concluído no sexto ano de Dario I (515 a.C.). A carreira de Esdras e Neemias como restauradores abrange os reinos de Artaxerxes, o longânimo (464-424 a.C.), e Dario II (423-405 a.C.).

O livro

Embora nas Bíblias mais atuais os livros de Esdras e Neemias apareçam como livros distintos, no texto hebraico e na Septuaginta (a tradução do Antigo Testamento em grego), eles constituíam um só livro (a divisão em dois livros foi provavelmente uma inovação da igreja cristã).
Orígenes (185 – 253 a.C.) foi o primeiro autor de que se tem informação a fazer distinção entre eles, a quem chamou 1 Esdras e 2 Esdras. Por constituírem originalmente duas partes de uma só obra devem ser estudados juntos como um único livro. Outro fato que chama a atenção, é que não se tem tanta certeza se, além disso, os livros devem ser considerados parte integrante da obra do autor dos livros de Crônicas.

Autor e data

Apesar de uma antiga tradição afirmar que um único autor teria escrito o livro de Crônicas, e também de Esdras e Neemias, é consenso entre os estudiosos de que o autor de Crônicas (“o cronista”), não seja o mesmo autor dos referidos livros. De qualquer forma, ao que tudo indica, Esdras como “hábil escriba" (Esdras 7:6), além de um instrutor na Lei de Deus como sacerdote, provavelmente, manteve um diário, que lhe permitiu mais tarde se tornar o compilador dos livros (Esdras e Neemias) em concordância com a tradição judaica. O período mais provável para se datar esses dois livros está entre os anos 430 - 400 a.C.
 
Contexto histórico

Em conjunto com Ester, Esdras e Neemias são o únicos livros históricos do período pós-exílico e são de grande importância para a reconstrução do período pós-exílico judaico. Contudo, eles não registram a história do povo de Deus em sequência ininterrupta ao longo de todo o período que os dois livros cobrem, mas apenas partes dele.
Esdras, cujo nome significa "Deus é auxílio", era sacerdote, um dos judeus deportados para a Babilônia, que tornou-se conselheiro do governo persa para negócios judaicos. A história, cujos fatos se narram neste livro, consta de duas partes separadas por um espaço de tempo de cinquenta e oito anos, incluindo todo o reinado de Xerxes.
A primeira parte, que termina no capítulo 6:22, contém a história dos que voltavam da Babilônica e trata da reedificação do templo, a qual tinha sido determinada por um decreto de Ciro (confronte com 2Crônicas 36:22,23) no ano 536 a.C.
A segunda parte, a partir do capítulo 7:1, contém a narrativa da jornada de Esdras a Jerusalém, jornada esta empreendida em virtude de um decreto de Artaxerxes Longimano no ano 457 a.C. Uma vez que a história de Esdras é contada antes da de Neemias, geralmente se supõe que tenha sido Artaxerxes I.  
Esdras tinha o verdadeiro espírito de oração. Apresentando sua petição por Israel diante de Deus, quando este havia pecado gravemente em face de grande luz e de privilégios, ele exclamou: "Estou confuso e envergonhado, para levantar a ti a face, meu Deus, porque as nossas iniquidades se multiplicaram sobre a nossa cabeça, e a nossa culpa cresceu até aos céus" (9:6).

Sua mensagem

Os livros de Esdras e Neemias, mostram a fidelidade de Deus em cumprir sua promessa feita a Jeremias muito tempo atrás (Esdras 1:1; Jeremias 29:10), contudo a restauração ocorreu apenas parcialmente, pois Israel não alcançou a posição de um de reino independente como acontecia antes do exílio, mas permaneceu como província do império persa. No caso específico de Esdras, o enfoque do livro é o cumprimento do decreto de Ciro para a reconstrução do templo, e a restauração espiritual do povo ao tomar consciência do seu pecado em virtude da celebração de casamentos mistos.

Esboço do Livro

I. Primeiro retorno do exílio e reconstrução do templo (capítulos 1–6)

A. Primeiro retorno do exilados (capítulo 1)

1. O decreto de Ciro (1:1–4)         

2. O retorno comandado por Sesbazar (1:5–11)

B. Lista dos exilados que voltaram (capítulo 2)

C. Restabelecimento do culto no templo (capítulo 3)

1. Reconstrução do altar (3:1–3)

2. A festa das Cabanas (3:4–6)

3. O começo da reconstrução do templo (3:7–13)

D. Oposição à reconstrução (4:1–23)

1. Oposição no reinado de Ciro (4:1–5)

2. Oposição no reinado de Xerxes (4:6)

3. Oposição no reinado de Artaxerxes (4:7–23)

E. O templo é concluído (4:24–6:22)

1. Retomada a obra no reinado de Dario (4:24)

2. Novo começo inspirado por Ageu e Zacarias (5:1,2)

3. Intervenção do governador Tatenai (5:3–5)

4. Relatório a Dario (5:6–17)

5. Busca do decreto de Dario (6:1–5)

6. Ordem de Dario para a reconstrução do templo (6:6–12)

7. Conclusão do templo (6:13–15)

8. Dedicação do templo (6:16–18)

9. Celebração da Páscoa (6:19–22)
           
II. A volta de Esdras e suas reformas (capítulos 7–10)
                         
A. A volta de Esdras a Jerusalém (capítulos 7,8)

1. Introdução (7:1–10)

2. A autorização para Artaxerxes (7:11–26)

3. Doxologia de Esdras (7:27,28)

4. A lista dos que voltaram com Esdras (8:1–14)

5. A busca pelos levitas (8:15–20)

6. Oração e jejum (8:21–23)

7. Distribuídos os artigos sagrados (8:24–30)

8. A viagem e a chegada a Jerusalém (8:31–36)
           
B. As reformas de Esdras (capítulos 9,10)

1. O delito dos casamentos mistos (9:1–15)

2. A confissão e a oração de Esdras (9:6–15)

3. O povo corresponde (10:1–4)

4. Uma assembléia pública é convocada (10:5–15)

5. Investigação dos culpados (10:16,17)

6. A lista dos culpados (10:18–43)

7. A dissolução dos casamentos mistos (10:44)

O texto mais difícil

Os dois últimos capítulos do livro tratam do problema do casamento misto. O capítulo 10:2,3, fala sobre um acordo da parte do povo liderado por Secanias para dispensar as mulheres estrangeiras, juntamente com seus filhos, casadas com os israelitas:

“Então Secanias, filho de Jeiel, um dos filhos de Elão, tomou a palavra e disse a Esdras: Nós temos transgredido contra o nosso Deus, e casamos com mulheres estrangeiras dentre os povos da terra, mas, no tocante a isto, ainda há esperança para Israel. Agora, pois, façamos aliança com o nosso Deus de que despediremos todas as mulheres, e os que delas são nascidos, conforme ao conselho do meu senhor, e dos que tremem ao mandado do nosso Deus; e faça-se conforme a lei”.

O texto, sem dúvida, pode suscitar algumas questões. Não seria essa atitude injusta? Como sábio homem de Deus, através do ensino, sem qualquer coerção, Esdras aguarda pacientemente que cada líder familiar assuma sua responsabilidade de acordo com as instruções estabelecidas na Lei de Moisés (Deuteronômio 7:1-4). Não foi uma decisão fácil, porém necessária, a fim de que a maldição de Deus não permanecesse sobre o povo:
“Ora, ponham-se os nossos líderes, por toda a congregação sobre este negócio; e todos os que em nossas cidades casaram com mulheres estrangeiras venham em tempos apontados, e com eles os anciãos de cada cidade, e os seus juízes, até que desviemos de nós o ardor da ira do nosso Deus, por esta causa”
(Esdras 10.14).

Seria inconcebível em nossa cultura, mas não na cultura daquele tempo. As mães recebiam a custódia de seus filhos quando os casamentos eram dissolvidos. No caso de Agar, por exemplo, quando foi dispensada por Abraão, seu filho Ismael foi junto com ela (Gênesis 21:14).
A grande lição que se pode tirar da leitura do livro de Esdras é que Deus é o grande condutor de toda a história. O livro narra o retorno de dois grupos de exilados da Babilônia, o primeiro liderado por Zorobabel (1–6) e o segundo por Esdras (7–10). O propósito do autor torna-se mais claro quando lemos (1:1) que é a mão de Deus que conduz o restabelecimento dos judeus à terra concedida aos seus ancestrais em cumprimento à sua promessa.
O Senhor suscitou a Esdras para ser seu servo. Moveu o coração do rei, de forma que Esdras achou mercê diante dele. O rei colocou em suas mãos recursos abundantes para a reconstrução do templo e possibilitou que retornassem os judeus que durante setenta anos foram cativos em Babilônia.